LINHA D'ÁGUA
Um conto.
Sl.130:1-2
1.
O recém-inaugurado tanque para saltos ornamentais do Parque Aquático Maria Lenk, como de súbito arrancado da placidez em que dormia, custou um pouco a distinguir o ponto vermelho que riscava o cristal de seu ventre e que ainda, veloz, tomava o rumo de profundezas cada vez mais íntimas.
Com efeito, a moça de collant grená drapeado de lantejoulas, mãos unidas ao fim dos braços esticados em agulha e pernas tesas enroscadas em furadeira, penetrou com perícia o bojo líquido da piscina em forma de cubo, deixando atrás de si um fugaz rastro branco – as bolhinhas de ar trazidas de cima, do mundo atmosférico. As águas, feitas azuis pelos ladrilhos e pelo reflexo do céu, dançaram com preguiça até reassumirem o estado natural de espelho; prova – mais uma – da execução de um mergulho perfeito.
Astrid – era esse o nome da promessa do Ouro – relaxava o corpo e as feições ante a consciência do belíssimo salto e se congratulava pela rápida correção de rumos que impunha a seus movimentos em pleno voo, dado o leve escorregão sofrido na plataforma. A mente da atleta vagava em meio a tais pensamentos, enquanto se deixava levar à superfície pela gravidade invertida do empuxo.
Estendeu um braço, a mão prestes a abrir passagem pelo fio que separa universos inconciliáveis; os pulmões, conquanto treinados para a privação do oxigênio, sentiam nascer nos alvéolos a nostalgia da respiração; o nariz desprendia a espaços gordas bolhas de êxtase; a boca, aberta, experimentando o prazer de comportar a água e a despejar, agora subia à espera do generoso hausto que haveria de aspirar, pondo fim à breve encenação ictiológica. Os dedos – o médio, o indicador, o anular, nessa ordem –, a palma da mão e depois o antebraço, todos esticaram a tensão superficial da água, que cedeu, com sua submissão de fluido, e se amoldou ao desenho que cada aresta do corpo de Astrid lhe forçava a aparentar.
Mas não se rompeu.
A jovem atleta empurrou com os dois braços a superfície da água e julgou ter enlouquecido quando viu a malha tênue subir, erguer-se na forma das hastes musculares que a elevavam, e, contudo, quedar-se intransponível. Sem firmar apoio no chão, a metros abaixo de si, fiando-se tão somente no vigor das pernas e do abdômen, a garota lançou a cabeça para o alto e sentiu a manta de vidro apertar-se contra seu rosto, tal como breve molde facial de gelo, até perceber o esgotamento de toda a complacência daquela substância outrora dócil e familiar, que agora a empurrava de volta para baixo.
Astrid estava presa dentro de uma piscina cheia até a borda, encarcerada pela própria água; não congelada e dura, mas que em tudo parecia conservar as propriedades conhecidas. Mantinha-se dúctil, maleável, deixava-se atravessar sem resistência por um corpo sólido – até a superfície. Era na fronteira com a atmosfera que o líquido perdia, sabe-se por que alteração ocorrida nas leis do Universo, a permeabilidade.
Rebelara-se, a água, ao cabo de milênios.
Por horas sem fim o tanque pareceu uma gelatina sem cor em que se movia por dentro um inseto que dela queria se livrar. E a planície espelhada já não mais se desfigurava pelo encrespamento que lhe dava a brisa ocasional ou pelo ainda mais ocasional mergulho dos atletas em treinamento; assumiu a fisionomia de dezenas de estátuas de cristal recheadas por um corpo moreno em traje carmesim, que logo tornavam a naufragar, repetidas, incontáveis, infinitas vezes.
A promessa do Ouro também não respirava. Já sem forças para se insurgir contra o inexplicável, Astrid afundou lentamente, debatendo-se, sentindo a urgência do oxigênio, aspirando o cloro, queimando a caixa torácica por dentro, engasgando-se, desesperando-se, morrendo.
Sem jamais morrer, contudo.
As horas naquele estado já excediam as dúzias, mas Astrid perdera a aptidão para a morte. Sequer desmaiava ou lhe arrefeciam os sentidos. Ao contrário: a agonia do afogamento injetava-lhe rajadas intensas de consciência. E a continuidade da falta de ar nunca cessou de fazer crescer dentro da pobre moça a sensação infernal e torturante da asfixia. Astrid não pôde se acostumar ao sofrimento, de modo que nele conseguisse, a lucidez porventura vacilante, acomodar-se numa forma nova de existência, em que a estabilidade da dor desvanecesse em simples incômodo. Não: cada instante intensificava a angústia, atualizava-a, abria caminhos sem fim em direção a um estado piorado de seu desespero físico, recusando qualquer apogeu – e o presumível lenitivo posterior.
Com os olhos escuros postos nas barras de luz que ficavam acima do trêmulo céu de vidro, na distante cobertura lateral do tanque, a menina naufragava. Um fio de sangue agora traçava a rota de sua descida ao abismo.
Porque não só as águas haviam mudado. Porque não só as leis do corpo, que regem a vida e decretam a morte, haviam sido alteradas. Também a piscina parecia não ter fundo. E a luz esmorecia sob litros e litros de matéria pesada. Astrid chegava às escuridões abissais. Cruzou o caminho de baleias e monstros, ouviu os roncos animais dos mistérios do oceano, sentiu a ameaçadora aproximação dos peixes de couraça, de trilobitas, engalfinhou-se em algas, viu na penumbra moverem-se os primeiros celenterados.
Vomitando sangue, achou-se com a boca próxima à fronte horrenda de um peixe-diabo, e a luminescência do bicho a fez lembrar-se de que costumava haver luz sobre a trêmula transparência celeste. Voltou para lá os olhos magoados. As barras de LED haviam sumido, mas em seu lugar aparecera um globo luminoso, de uma claridade amarela e baça. Ergueu a mão para o alto, qual mendiga faminta, esgazeada, a boca aberta, os lábios rachados, porém
2.
o doutor Figueiredo logo desligou a lanterna e fechou gentilmente, com o polegar, a pálpebra de Astrid. Deslocou a mão com cuidado e abriu o outro olho da paciente. Tornou a apontar o facho de luz.
– Nenhuma reação relevante. Só um pouquinho de contração das pupilas, mas isso não passa de um reflexo muscular.
– Nada mesmo? Então ela não ouve o que dizemos? Outro dia pensei ter ouvido ela resmungar como se pedisse... tive a impressão, doutor – atalhou a mulher cujos braços se abraçavam em solidão, envelhecida pelos anos de padecimento.
– Ela está alheia a tudo, dona Maria. Para o bem ou para o mal... embora acredite que mais para o bem. Sei que é difícil para a família, depois de tantos anos...
– A família sou só eu, doutor. O pai morreu esperando ela acordar. Os amigos... bom, um por um, todos correram. Mesmo o técnico dela, o Juca, que disse que estaria sempre conosco... O escorregão que ela sofreu na plataforma fez ela cair de lado na piscina. Minha filha bateu parte da cabeça na quina de cerâmica e o resto... é o que o senhor está vendo. O que todos estamos vendo há anos. – apontou para uma reportagem sobre o acidente colada na porta do armário em frente à Astrid, junto a diplomas, certificados e medalhas de metal barato – não digo que foi responsabilidade dele, do técnico, quero dizer, mas se ele não tivesse convencido, se não tivesse posto na cabeça da minha filha que ela era um talento e isso e aquilo... – virou o rosto. Astrid não fora a única a acreditar que um dia a vida poderia ser outra. Maria também acreditou. E essa culpa matava-a.
– Mas – tornou o médico, com um pigarro constrangido –, asseguro, ela não sofre nem um pouco. Não pensa, não sente. Não tem, perdoe a expressão, vida interior.
*
“Vida interior”, repetiu Maria, já de noitinha, enquanto dava sopa à menina de quase trinta anos que aparentava cinquenta, os cabelos brancos nas raízes, os cantos do rosto derreando precocemente.
– Você tem vida interior, filha?
Pôs sobre o criado-mudo o prato fundo e a colher. Chegou a cadeira de rodinhas para frente e abriu a pálpebra de um dos olhos da moça inválida que deitava no leito improvisado à guisa de maca. Olho inexpressivo. Maria não se intimidou por sua opacidade.
– Você tem vida interior, Astrid? – abriu o outro olho e, com os braços esticados, encarou-os, examinando-os.
Qual as águas mansas e espelhadas que ocultam seu interior distraindo quem as observa na projeção ilusória de si mesmo, Maria viu-se refletida nos globos oculares como se debruçada sobre um lago. Não foi enganada, contudo, a sofrida mulher. Enchendo-se de uma astúcia quase sobrenatural, enxergou na filha impassível a imagem do mar calmo e traidor, das marés tranquilas que engolem os banhistas e naufragam as embarcações em repentinos sorvedouros. Indagou, em solilóquio, quando chegaria o tempo de virem à tona os despojos de tudo o que roubaram do mundo e que, por séculos dos séculos, aprisionavam em suas entranhas, certas da proteção que lhes conferia uma superfície falsamente translúcida.
E logo já se esvaía também aquele entendimento superior, aquele lampejo de inteligência, que principiava a girar para o ralo da memória. O instante sumia-se.
Maria pressentiu a normalidade voltando. Agarrou-se aos lençóis da maca, como a uma tábua - carecia ganhar tempo. Antes que tudo desaparecesse, dirigiu-se convicta, como há muito não fazia, à criança idosa diante de si:
3.
– A mãe te ama mesmo sem te ver – e Astrid escutou sua voz, as lágrimas se misturando ao sal do oceano.


Um conto que, por pouco, não trespassa a fronteira da poesia. Ou trespassa?
Mas gente 😯